Posterous theme by Cory Watilo

DESDOBRADO

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Dez1979

O sentido humano sobreveio ao sentido terreno,

E em nosso corpo este engano habita,

Ludibriando de mil maneiras essa única paixão.

Desde o nascimento o Homem não é seu,

É apenas uma sublimação às avessas,

Uma espuma de sal sobre suas ondas,

Um reflexo deformado do seu brilho,

Uma única fé imutável e crédula, obstinada.

A dor e a alegria fundem-se numa inócua determinação,

De salvação (ou perdão), de insensatez (ou razão).

E na situação de uma qualquer moral,

Que sobrevém à instância de um pensamento,

O gasoso transforma-se em sólido.

O Homem é um jejum do ser humano.

 

COMPREENDENDO

Agosto/11/1975

Sob a árvore vital me encontro

Só, sentado, de bruços, deitado

Sonolento (não importa)

De qualquer maneira,

Meus dedos rasgam a terra

Eroticamente penetrando,

Rasgando o hímen da juventude

Procurando, sem saber, as raízes

Minha sede é saciada

Pelo orvalho, que de manhã

Goteja pelas folhas mais velhas

E minha fome é alimentada

Mastigando frutos verdes ainda

Dos ramos baixos;

E mais fundo, meus dedos tentam penetrar

Dissipando minh'alma jovem num sonho azul

- "borboletante" -

No espaço,

No incrível vácuo do nada.

 

Uma vida...

Somos em quatro irmãos nascidos em 1957, 1958, 1961 e 1968.

Eu sou o primogênito e todos fomos criados em um pequeno (há época de minha infância imeeenso) sobrado em terreno longo e mágico, numa rua da Casa Verde, bairro classe média baixa de São Paulo.

Após ter saído de casa em janeiro 1975 aos, 17 anos rumo a Lins, para estudar Engenharia, voltei esporadicamente ao sobrado que já, a mim se tornava um lugar onde a minha família morava. Eu? Bem... eu já pertencia ao mundo das minhas próprias decisões e indecisões.

Em 1977, meu pai - impetuoso e solitário como sempre - tempestivamente decidiu e deixou o sobrado, levando a família para sua terra natal, que - pra minha alegria ficava a 50 km de onde eu estudava. Nos anos que se seguiram passamos por poucas e boas, cada um dos irmãos se ajeitavam como lhes era possível, estudando, trabalhando e a cada período um seguindo a sua própria vida.

Zanzamos por aí: um por Ilha Solteira e Bauru, outro por Apucarana, mas todos acabaram de volta a São Paulo... Nossos pais, jovens, faleceram... ficamos velhos e órfãos.

Inúmeras vezes e isoladamente - tenho certeza - cada um de nós voltou ao antigo nº 712 da Rua Saguairu e passeou vagarosamente pela vizinhança encontrando e reconhecendo um antigo morador aqui ou acolá, um ou outro companheiro de escola tocando o negócio que era de seu pai ou uma antiga namoradinha... 

Três dos irmãos casaram e nossas mulheres nos deram filhas e filho. Um dos quatro irmãos, único, até hoje solteiro no estado civil - mas compreensivelmente casado com o Mundo - decidiu, há uma década, viver de coração, em seu porto seguro, salvador.

Desde então sinto-me um imbecil por nunca ter ido visitá-lo. Não pelo calor, pela praia, pelas férias, pela farra, pela Bahia, mas por minha total displicência para com ele. Miseravelmente falhei como irmão...

Hoje pela manhã noto um email perdido entre dezenas, centenas... é do meu já soteropolitano irmão, deixo para ler seu conteúdo em casa. O email em si apenas explica o que e como foi elaborado o seu anexo, que com orgulho imenso (por um lado) e nó maior ainda na garganta (por outro) compartilho com todos vocês:

(download)
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Substantivo Abstrato

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maio 2011

 

Se de tanta verdade a meiguice se esconde

E desanca a sem-vergonhice de anteontem

O reflexo da palavra dita em alto e bom tom

Se encalacra convexo então em via maldita

 

É por trejeitos que segue-se a minha vida 

Talvez por defeitos da infantilidade brejeira

Ou por incompreensão do mal do humano 

Na esteira do animal insano que me cativa

 

Traduzindo os sorrisos alheios de sinceridade

Produzo cadeias tênues de quase realidade

E luzindo os olhos amealho momentos de paz

Sem Título

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SEM TÍTULO #01
Sem Data (entre 1976 e 1978)

Em noites mal-dormidas 
Em palavras revividas
Ressurge impregnado de ilusões
Um outro meu invólucro
Brando, e louco, e explosivo,
Semeado, e disforme,
Conquistado
Uma embaçada lua
Pelas bobagens sérias
Soadas através das portas;
Minha guerra não houve
e o pranto foi uníssono
Um único e enorme silêncio,
Minha geração perdeu...

Ineditismo

10 de março de 1976
Ineditismo

Eu sou tudo o que me resta
E restarei p'ra mim sempre...
Afogando lentamente
Nos dias que se sucedem
Esse mar de sargaços eterno
Nessa sangria de salamargo
Dos meus anos quase vinte.
Trago comigo meu ranger de dentes
Nessa busca corrosiva e atroz
Nesse murmúrio vago
Em que se transformou minha voz,
Nada de novo re-existe
Sob essa mancha solar...

Profissão

Escritor
dez de 1979

Profissão

Astrologicamente dualístico, mercurial

Numericamente 6353962 perdido entre tantos milhões, bilhões

Civicamente solteiro, fisicamente casado (com o mundo)

De língua entravada e fala balbuciante

De alma calada e olhos de comerciante

Inconstantes e mortiços, um ar austero…

Uma criança séria de meias palavras

E varizes nas pernas sempre alvas

Andar ereto puxando pela direita

E um pensamento amarelo, meio a maleita

A respeito do mundo.

Templo

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22 de maio de 1979

Templo

Em meus dias paralelos,

Às suas noites aneladas.

Em meu cosmo balbúrdia,

Minha alucinação, descrente

Num paradoxo ateu de segunda-feira,

De fome, e de nome;

Em meu passado tão presente,

De gemidos e calabouços engendrados,

De hipnótica sonolência arquivada.

Em meu segundo, terceiro ou quarto,

Tempo ou numeral, não importa!

Na aguerrida sobrevivência natimorta;

No útero enlameado e podre, 

Concebido no uivo agonizante 

Ainda entalado nas bocas das covas.

Escarrado e incandescente.

Infinito e descabido.

Ordenadamente desencontrado me habito. 

Total

Sozinha

30 de julho de 1979

Total

Oferecendo uma vivenda debochada e fraudulenta

Tua alcova subornada pelo cheiro de jasmim

Erva-doce, tulipas e damas-da-noite

Convidava como um bordel, num sorriso 

Escancarado e ausente do mundo, o sonho

Doce espaçp noturno de presença esquecida

Entre lençóis de linho e fantasmas passageiros

Entre poções mágicas, alcoólicas de uma garrafa qualquer

Entretidos com o umbigo alheio e desenhos manchados na parede

Malcriando feras e anjos caídos, deuses da mito-lógica investida

De palavras e gestos extenuados .

Quanto sabor, terror, fervor. Quanta brincadeira,

Doideira e alvoroçadas bandeiras,

Rotas, sujas, ejaculadas no espaço, num espasmo 

Sem rancor ou pudor, num espanto.

Quanta risada, lágrima e suor,

Quanto tudo.